sexta-feira, 3 de junho de 2016

Sentimentos não tem preço

V= Vendedor; C= Cliente

V: Olá, como posso ajudá-lo?

C: Eu queria comprar sentimentos, por favor.

V: Claro, amigo. Quais que você deseja?

C: Quais que você tem aí?

V: Ah, temos uma grande variedade. Dividimos em categorias, mas de vez em quando, alguém passa e bagunça todo. Mistura amor com ódio, desprezo com saudade, amizade com paixão. Fica uma loucura.

C: Me fala mais desse tal amor, aí.

V: Ah, esse é um caso único. É um dos que mais sai. Até algum tempo atrás, quase não tinha devolução ou troca, mas de uns tempos pra cá, parece que as pessoas passaram a gastar muito rápido. Quase todo dia alguém aparece aqui pedindo pra trocar por um novo ou falando que nunca mais vai querer outro igual. Por outro lado, tem aqueles que ficam satisfeitos e não devolvem nunca mais. Pode ser vendido na unidade, mas recomendamos que seja comprado o par.

C: Interessante. E como que faz manutenção?

V: Depende do modelo que você quer levar. Mas é basicamente com umas ferramentas que a gente oferece aqui também, como carinho, respeito, confiança e, se você não contar pra ninguém, a gente inclui um pouco de luxúria aí também.

C: Bacana. Me interessei. E essa amizade? Como que é?

V: Bom, esse é um caso mais complicado, pois ele dura para sempre, logo tem um valor mais alto. São poucos os casos de clientes insatisfeitos, mas quando acontecem, os clientes trocam por um modelo completamente novo e nunca mais querem saber do antigo. Nunca vi vender em unidade, mas de par pra cima sai um bocado. As crianças são as que mais compram. E antes que você pergunte se tem manutenção, fique tranquilo, que pra manter em perfeitas condições é só não abandonar e manter sempre em uso.

C: Gostei bastante. Mas também me falaram duma tal de saudade que tava em promoção.

V: É, está sempre em promoção, na verdade, mas é porque ninguém nunca quer. As pessoas olham, olham, mas sempre preferem levar outra coisa. A saudade sai muito na troca de outros sentimentos. Tem gente que traz amor ou amizade, por exemplo, pra trocar, mas de tão antigo, não podemos trocar por um novo, apenas por saudade. E saudade não tem troca e dura bastante tempo.

C: Melhor deixar esse pra outra ocasião. E o que você tem naquele corredor escuro?

V: Ah, você nem vai querer saber. Ali estão estocados os sentimentos ruins. Ali tem ódio, raiva, inveja, tristeza, soberba, crueldade e muito mais. Eu não recomendo pra ninguém, mas tem cliente que insiste em visitar aquele corredor e depois sai chutando tudo. Se você realmente quiser, eu até te mostro, mas te garanto que você não vai sair satisfeito.

C: Mas não é bom ter esses sentimentos pra eventuais emergências?

V: Que nada! Pra emergências, a gente tem um kit especial. Ele vem com Bom Senso, Razão, Pensamento Positivo, Esperança e Sorte.

C: Gostei. Vou levar um pouco de cada um. Dá uma caprichada no do amor, porque esse eu quero bastante.

V: Claro, pois não. E é pra agora?

C: Não, é pra sempre.

quarta-feira, 25 de março de 2015

TOP (Torcida Organizada Partidária)



"O problema dos neopolitizados é achar que partido político é que nem time de futebol."



Concordo, mas vamos imaginar como seria, se isso fosse levado ao pé da letra.


As pessoas poderiam cornetar seus candidatos como cornetam os jogadores nos estádios.

1 – Caralho, Aécio! Não cai muito pra direita, porra! Joga no meio que tá livre!!

2 – Dilma! Vem pela diagonal que a esquerda tá tumultuada! Chega na frente e toca no Lula que ele resolve.

3 – PROFESSOR! Tira a Dilma, professor! Ela tá machucada desde o fim do primeiro tempo e tá governando no sacrifício! Como assim é o Temer que tá no banco? Tá, deixa a Dilma.
 

4 – PANEEEEELAAAAA!! PANEEEEELAAAA!! PANEEEEELAAAA!! BATENDO MINHA PANEEELAAA!!!

5 – Eduardo Paes... Ô, Eduardo Paes... Eduardo Paaaaaaaaaes. Ô, Eduardo! (*Eduardo Paes olha pra você*) VAI TOMAR NO CU, EDUARDO PAES!

6 – DOMINGOO! EU VOU LÁ NA CANTAREEEIRAAA! 
VOU PRA VER QUE A ÁGUA TÁ RASTEEEEIRA! 
VOU LEVAR UNS BALDES E MANGUEIRAS! 
SÓ NÃO LEVO NADADEIRA PORQUE PARECE UM SERTÃO! 
NÃO QUERO VER O SOLO RACHADO, QUERO VER ELE MOLHADO PRA PODER ENCHER GALÃO! 
PORQUE NÃO TENHO NEM ÁGUA PRA FERVER E SEM TOMAR BANHO, COMECEI ATÉ A FEDER! OOOO!
OOOOOO, OOOOOO, OOOOO, OOO! 
GERALDO!


Ou, se quiser fazer que nem gente grande, poderiam criar as TOP (Torcidas Organizadas Partidárias) e levar seus bandeirões pra manifestar nos jogos e nas concentrações, ou, no caso, nas sedes dos partidos:


Estrelas Vermelhas – “SE A GENTE SOUBESSE QUE O SEGUNDO TEMPO SERIA ASSIM, TERIA IDO EMBORA NO INTERVALO!”


Tucanões da Fiel – “ACOBOU A PAS! FORA AÉSSIO POIS É COMEDIA!”


Força Velha Demo – “QUEREMOS NOSSO ANTIGO PMDB! VOLTA ARENA!”

Raça Auri-Rubra – “UM BRASIL MELHOR É OBRIGAÇÃO! A TORCIDA É PEQUENA MAS É APAIXONADA PELO PSOL”

Mancha Verdinha – “DE QUE ADIANTA UM BRASIL SAUDÁVEL, SE O BRASILEIRO NÃO TEM SAÚDE?”

TJB (Torcida Jesus Brazuca) – “SE DEUS QUISER, O BRASIL RESSUSCITA NO TERCEIRO DIA!”


Mas lembrem-se: em dias de jogos/eleições, os torcedores/eleitores não são inimigos, apenas adversários.



Segue o jogo.


quinta-feira, 13 de março de 2014

Refasamba

Cliente reprovou e eu sofri calado.
Não deu pra aprovar nem com planejamento.
Queria dizer que ele estava errado,
mas preciso pagar o meu apartamento.
Com letras grifadas num e-mail ríspido
Chorei de emoção quando acabei de ler...
No finzinho, sublinhado e em amarelo,
Ele disse: “Redator, eu confesso,
Tô reprovando porque o meu sobrinho
manda melhor que você.”

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Brinco de mulher



Uma vez, eu me apaixonei por um brinco. 

Não, não pra eu usar, mas por um que estava sendo usado por uma mulher.


Esse brinco brincava comigo e cada dia ele aparecia de um jeito diferente. Tinha dia que ele aparecia de metal em forma de argola, tinha dia que era comprido de madeira ou casca de árvore.

Algumas vezes era apenas uma pedrinha brilhando discretamente, outra era uma pena de alguma ave tropical. Tinha vezes que o brinco nem aparecia, mas mesmo assim eu ficava ali olhando apaixonado.

Eu nunca fui tão fiel, mas fazia questão de não olhar para nenhum outro brinco. 

Às vezes até batia a tentação de olhar discretamente para um colar ou uma pulseira que tentava imitar o brinco, mas eu sempre voltava toda a minha atenção para aquela formosidade.


E sempre que podia, eu chegava bem perto do brinco e falava bem baixinho, quase sussurrando no ouvido da dona do brinco: Eu te amo.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Tudo começaria pela capa.


Ele ainda era um daqueles últimos românticos que acreditava em encontrar sua alma gêmea no metrô ou no ônibus, numa quinta-feira de chuva, indo pro trabalho.

Ele não sabia como ela seria. Alta, baixa, loira, morena, olhos claros ou castanhos.  Só havia uma certeza sobre ela: estaria lendo o mesmo livro que ele.


Ele já havia imaginado aquela cena de diversas maneiras. E tudo começaria pela capa.

Ele estaria lendo “20.000 léguas submarinas”, ela também, eles dariam uma risada ao reparar nos seus livros, ela perguntaria se ele está gostando, ele diria que sim, ele perguntaria se ela já chegou na parte que aparece a lula gigante, ela diria que não, ele pediria desculpa pelo spoiler, ela responderia que ele poderia se desculpar pagando um café para ela e, a partir daí, começaria a ser escrita uma nova história.

Ou então, ele estaria lendo um clássico de Shakespeare, “Romeu e Julieta” talvez, ela também, eles dariam risada ao reparar nos seus livros, ele perguntaria se ela está gostando, ela diria que sim, ela perguntaria se ele acredita em amor à primeira vista, ele responderia que não acreditava até aquele momento, ela daria um risinho tímido, ele se apaixonaria pelas suas covinhas e, a partir daí, começaria a ser escrita uma nova história.


Ou, quem sabe, ele estaria lendo a biografia do Metallica, ela também, eles dariam risada ao reparar nos seus livros, ele perguntaria se ele está gostando, ele responderia que sim, ele perguntaria se ela já foi a um show deles, ela responderia que sim, mas sempre sozinha porque era a única do seu grupo de amigos que gostava de Metallica, ele falaria que tinha dois ingressos pro próximo show dele, ela aceitaria o convite e, a partir daí, começaria a ser escrita uma nova história.


E foi naquele dia, naquela quinta-feira chuvosa, que ele acordou com uma sensação diferente, uma sensação de que algo surpreendente iria acontecer.

Colocou seu livro “O Rei do Inverno” na mochila, saiu de casa, andou até o metrô, entrou no vagão mais perto da escada e olhou para as 3 mulheres ao seu redor.


Uma estava com um Kindle, outra com um Kobo e a terceira, que estava mais perto, com um iPad.

Todas estavam lendo, mas, sem as capas, nunca saberemos qual história.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Ditadura Militar Criativa

Uma pessoa contou para outra pessoa que contou para outra pessoa que contou pra mim a seguinte história:

Na época da ditadura, uma famosa revista do Brasil foi obrigada pelo governo a colocar dois censores dentro da sua redação.
O trabalho deles era filtrar toda e qualquer informação que fosse contra a doutrina militar.
E assim durou por alguns anos. Os jornalistas tentavam relatar uma notícia, mas os censores iam lá e cortavam algumas partes, alteravam alguns trechos e até proibiam certos conteúdos.

Em um dado momento, um dos donos da revista pediu para que o editor-chefe ficasse amigos dos censores, para tentar aliviar a censura, dar aquela “afrouxada amiga” e fazer vista grossa para algumas coisas.
Mas a censura continuava, as matérias iam sendo podadas, os jornalistas iam se revoltando cada vez mais, mas de nada adiantava.
E, como em qualquer revista, os jornalistas precisavam escrever suas matérias e os exemplares precisavam ir pra rua pra vender.

Um certo dia, os censores avisaram o editor-chefe que iam sair da revista. Esse editor perguntou para eles, quem viria para ficar no lugar e eles foram objetivos na resposta: ninguém.
Curioso, o editor-chefe indagou por que não haveria mais censores, já que os militares ainda estavam governando no país com mão de ferro.

Eis que um deles respondeu: no começo, a gente precisava censurar antes das matérias irem para as ruas. Os jornalistas ficavam bravos, reclamavam, davam "pití" mas tinham que obedecer. Com o tempo, eles foram criando o hábito de escrever suas matérias já pensando na censura. Pouco depois, a gente nem precisava filtrar, pois os textos já vinham do jeito que a gente queria. Agora, tudo que é escrito, já vem censurado pelo próprio jornalista.



E assim ainda acontece no dia a dia de muitas agências.